Na resenha com Pedro | Nina de Pádua


Nina de Pádua Andrade é uma artista de multitalentos. A atriz carioca tem no currículo diversos trabalhos memoráveis, e em 2020 completa 50 anos de profissão com muito profissionalismo e dedicação em entreter e emocionar o público.
Nina bateu um papo super descontraído conosco em que conta um pouco sobre sua trajetória no teatro e na TV, além de comentar sobre como é fazer novelas em diferentes emissoras, e fala também sobre sua personagem, Glória, que atualmente pode ser vista na reprise da novela Apocalipse exibida pela RecordTV.
De antemão deixo aqui meu agradecimento e meu imenso carinho à Nina, pela sua receptividade e disponibilidade junto a equipe do Portal Comenta.
Pedro Lima: Atriz, apresentadora, diretora teatral e professora de interpretação. Nina, o que te levou a enveredar para o caminho das artes?


Nina de Pádua: Querido, eu sempre contei uma historinha que eu comecei com seis anos de idade em uma coroação de nossa senhora em que fui anjo, mas ano passado eu fiz uma peça muito bonita chamada Marduk, e no processo de criação dessa peça que eu fiz com o Anselmo Vasconcellos, que é um querido amigo, me lembrei que faço teatro desde os três anos de idade. (Risos) Eu a vida inteira fui isso, e eu não tive como sair desse caminho. Sabe uma coisa, desde criança eu sempre participei dessa forma e quando eu cresci a coisa foi tomando um outro volume, graças a Deus eu tive pais muito bacanas que compreenderam e me apoiaram, que me incentivaram e aí a vida foi indo e eu não fui sendo outra coisa além disso.
PL: No início da carreira muitos atores costumam levar o famoso “NÃO!”, isso aconteceu com você? E hoje como vê as oportunidades para quem está começando a carreira?


NP: Olha eu vou ter que falar uma coisa que vocês vão achar que eu sou muito vaidosa e metida a besta, mas eu acho que eu nunca levei um não! (Risos) Certamente deve ter havido, mas não ficou registrado para mim. Eu sempre fui muito feliz, eu sempre fiz coisas bacanas, eu fui de um grupo muito importante de teatro que é o Asdrúbal, desde cedo eu estive envolvida e a coisa foi acontecendo de uma forma que eu não precisei, não batalhei por isso. A minha carreira foi acontecendo e eu agradeço muito a Deus, porque sei que para muita gente é um caminho muito difícil. E eu acredito que hoje em dia por um lado está mais difícil por ter mais concorrência, mas ao mesmo tempo tem muitas outras formas de exercer a profissão, como o streaming, as séries, e sem dúvida, alguma novidade deve partir dessa pandemia. Ainda serão criadas muitas outras novas que a gente ainda nem conhece, tiramos pelas lives, há seis messes ninguém falava sobre live, e é uma delícia, já fiz algumas e é muito legal essa forma de se comunicar.

Nina no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone


PL: Nos anos 70 você participou do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, grupo que ficou marcado pela forma irreverente de atuar e pela desconstrução da dramaturgia. Como foi fazer parte deste grupo e fazer teatro no período da censura?

NP: Foi muito bacana a minha trajetória ali dentro. Na verdade, antes do Asdrúbal a minha primeira peça profissional adulta, por que eu fiz infantil antes disso, mas a primeira profissional adulta foi Calabar, do Chico Buarque e Rui Guerra, e que foi proibida pela censura em 1973. A gente não chegou a estrear e até brinco dizendo que não estreei até hoje profissionalmente por que eu fui censurada, mas enfim, a minha trajetória vem desde essa época sempre ligada à uma ideologia que não é a ideologia de hoje em dia, que a tornou em uma palavra tão desgastada, mas é uma coerência com a minha posição dentro da arte, dentro da vida que me trouxe até aqui. Naquela época aquilo tudo estava acontecendo com muita efervescência por que a gente estava em plena ditadura militar, que foram anos muito duros. A gente tem amigos que saíram de casa para comprar cigarro e até hoje não se sabe o paradeiro, então foi uma época muito, muito feia para quem não viveu e hoje em dia fala essas bobagens que andam por aí. É uma leviandade por que foram tempos terríveis, então ser uma jovem atriz dentro daquele contexto me fazia pelo menos me sentir, mesmo que não fosse, uma revolucionária. (Risos) E o mais bacana que passamos por isso tudo e estamos aí até hoje e continuamos fazendo. Isso é o mais bacana de tudo, por que chegamos! Aquilo lá é a nossa base, mas passamos a diante, não ficamos parados ali no tempo. Eu vi semana passada uma carta que Amir Haddad escreveu, para quem interessar, está publicado no meu facebook, e essa carta é linda, ele é uma pessoa extraordinária, fundamental na arte do Brasil e aos 85 anos ele escreve uma carta tão poética, tão cheia de esperança, tão linda dizendo que ele não vai lutar contra o que ele não quer porque é perca de tempo, ele vai lutar pelo que ele quer, pelo que ele pode construir, pelo que ele ainda pode fazer e a única saída para o ser humano é através da arte, através da cultura e através do sonho. Na minha peça que eu fiz o Marduk eu fiz a Hilda Hilst, ela diz que nos dias de hoje não se pode não querer utopia, é preciso sonhar com utopia, é preciso fabricar utopia, é preciso construir utopia.
PL: Já no final dos anos 70 você fez sua estreia na TV, na série Malu Mulher (1979) logo depois fez sua primeira novela e última escrita por Janete ClairEu Prometo (1983). Como surgiu este papel? Sentiu alguma dificuldade por ter vindo do teatro e cinema?
NP: A primeira coisa de televisão sempre é um pouco assustador para quem vem do teatro, porque teatro é muito aberto, fala alto, faz muitos gestos e televisão não é bem assim, mas é uma delícia de fazer e uma coisa que você aprende rápido. Se eu vê agora Eu Prometo, talvez eu diga, “ai meu Deus como eu fiz isso”, mas na época a minha história foi muito bacana, eu tinha uma história paralela, eu virei bandida, era namorada do Marcos Paulo que era um bandidão me separei, fui para Argentina e voltei como Mercedes Alvarenga, me casei com Ewerton de Castro, que era um louco ele me trancava no quarto, me dava porrada o dia inteiro até que eu fujo dele, reencontro com o Marcos Paulo, e entro para o bando e viro bandida até o final da novela. O Marcos Paulo é morto e não lembro que fim que levei, devo ter sido presa, mas não me lembro mais, são muitos anos. Esse ano estou completando 50 anos de carreira então para lembrar de tudo garoto, é muita coisa. (Risos)
Nina em A Gata Comeu

PL: A personagem Ivete, de A Gata Comeu (1985), certamente seja um dos papéis mais
lembrados de sua carreira. Quais recordações tem da trama?


NP: As melhores possíveis! Aquilo ali é um sonho, meu núcleo era muito especial, eu caí filha de Dirce Migliaccio e Luís Carlos Arutim, então ,meu amor, foi um presente dos deuses. Foi um delírio quando foi ao ar e o público adorava, a novela foi muito feliz, cheia de libriano, acho que por isso deu certo. (Risos) E a gente gravava na Urca que é um dos lugares mais lindos do Rio de Janeiro, então foi uma época muito feliz, foi especial.
E logo depois, é importante falar porque hoje em dia as pessoas não citam mais, mas na ocasião foi outro sucesso estrondoso, a novela Dona Beija (1986), a gente saiu de A Gata Comeu e o Herval (diretor da novela), foi para a Manchete, e levou uma galera. Fizemos Dona Beija e na ocasião batia o remake de Selva de Pedra (1986) com a Fernandinha (Fernanda Torres), a novela fez bastante sucesso na época.

PL: Até hoje os fãs da novela promovem encontros, o que atribui o sucesso da novela mesmo tendo sido exibida há mais de 30 anos?


NP: Ah meu amor, difícil dizer por que qualquer coisa que eu diga é especulação, mas primeiro de tudo e acima de tudo, o clima que reinava nas gravações entre a equipe. As pessoas adoravam ir para o trabalho fazer aquela novela. A gente ia feliz da vida, a gente se divertia então tudo isso transparece na tela, isso já é um indicador muito grande e a novela tem uma jovialidade e uma ciosa meio carioca que as pessoas ficam apaixonadas, é muito sedutor aquela época, aquela vidinha, aquela inocência daqueles personagens, deve ser por aí, mas é puro chute meu! (Risos).

Nina em Chamas da Vida


PL: Você teve passagens pelo SBT, Rede Manchete e RecordTV, como é a experiência em fazer TV em outras emissoras?

NP: Eu vou te falar uma coisa, todas as casas por onde passei eu sempre fui tratada com tanto carinho, com tanta lisura, enfim, carinho mesmo. Eu fiz na Band também só que lá a novela era comprada, a produtora era TV Plus e passava na Band, e se chamava O Campeão (1996), então todas as emissoras, cada uma na sua época eu fui muito feliz, foram épocas diferentes, na Record não fiz só bíblica não! Fiz Apocalipse (2017) que está no ar agora, fiz Vitória (2014) e Chamas da Vida (2008), que é linda e eu adoro! Uma novela muito bonitinha, tenho maior carinho por Chamas da Vida. Eu fui para Record para fazer Chamas da Vida e tinha o mesmo clima da Gata, esse clima que o elenco todo se adorava, adorava gravar, eu acho que isso passa para o público, o público sente a energia, é uma coisa que não dá para explicar, mas que existe!

PL: Atualmente podemos vê-la na reprise de Apocalipse, como foi participar desta produção que traz uma passagem bíblica tão complexa como tema central?


NP: Pois é! Apocalipse também foi uma novela que era uma delícia de gravar, as pessoas adoravam, eu adorava ir fazer a italiana nas diversas fases e eu acabei tendo uma história muito bonitinha dentro da novela. Enfim tem pessoas que acusam defeitos, mas querido, se você quiser criticar você sempre vai achar um caminho para isso, eu prefiro gostar! Eu gosto muito da novela, acho simpática, ela lida com umas coisas que na época… Olha eu, maluquice agora que lembrei disso, eu não vou saber te dizer quais foram os acontecimentos, mas durante as gravações começaram a acontecer coisas, vulcão explodindo e a gente comparava com a novela e ficávamos arrepiados. Mas quando a gente começou a gravar a coisa começou, um redemoinho de acontecimentos mundiais! Acho que a novela tem seus méritos, eu gosto muito da novela e eu tenho orgulho de ter feito.

Nina em Apocalipse


PL: Estamos vivendo um momento bastante difícil, em que a classe artística não se vê
representada por quem é de direito. O que tem a falar a respeito?

NP: É muito triste tudo isso, muito triste. Porque a gente tem um pais tão rico, tão lindo com um povo tão bacana e de repente a gente se vê jogado nesse redemoinho de gente sórdida, gente feia, gente de alma escura, gente das sombras. Não é gente da luz e com isso muita gente é sacrificada, eu presto minha solidariedade da forma que eu puder, quando puder eu procuro ajudar aos que estão próximos, eu fico muito triste e espero que seja breve essa passagem para que possamos recuperar todo esplendor que é o Brasil de Tom Jobim, o Brasil de Ari Barroso, o Brasil de Gilberto GilCaetano VelosoChico Buarque, João Gilberto, dessa gente linda. É esse o nosso Brasil de verdade, é isso que vale na vida! Nosso povo é mais forte que isso tudo! A bandeira brasileira é nossa! Não é de uma minoria que se apossou e que se enrola nela e vai para praça pública, a bandeira nacional é de todos nós!

PL: Acredita que após a pandemia o consumo da arte de uma forma em geral será o mesmo?


NP: Você me credita uma sapiência que eu não tenho, não tenho como saber. (Risos)
Eu espero que sim! Espero que as pessoas fiquem muito mais ávidas para consumir arte, para viver de arte, para produzir arte, porque eu acho que é o caminho da mudança é através da intuição e da criatividade humana, enfim, na carta do Amir ele fala disso. Não vai ser um técnico, não vai ser um matemático, será através dos artistas que virá essa grande mudança que a gente ainda não sabe como é, mas que sem dúvida tem que ser para o bem de todos nós.



PL: Quais são seus planos pós pandemia?


NP: Eu estou com uma mãe linda, linda de 90 anos com muita saúde, graças a Deus, mas comum princípio de Alzheimer. Então neste momento que está com a pandemia, eu até agradeço, porque estou podendo me dedicar inteiramente a ela, eu estava escalada para fazer Gênesis, acontece que parou tudo e eu fui parada. (Risos)
Então eu não sei o que virá, não sei se vou continuar por isso, não posso te afirmar. Planos
muitos, quero fazer teatro, quero fazer tudo que tenho direito para fazer, neste momento estou incumbida dessa missão de aproveitar da minha mãe o máximo que posso, por que 90 anos, não sei mais quanto tempo ainda terei, então já que tá de pandemia vamos ser feliz, vamos curtir. E vamos torcer, eu quero fazer Gênesis, pede aí para Record me chamar! (Risos)


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