Na resenha com Pedro | Polly Marinho



Eu, Pedro Lima, tive o imenso prazer de entrevistar uma atriz linda, bem humorada, cheia de atitude, feminista, modelo plus size e cantora. Estamos falando da talentosíssima Polly Marinho, que contou um pouco sobre o início de sua carreira, a invisibilidade que os artistas negros sofrem, entre outros assuntos que você confere na entrevista abaixo.

Polly Marinho iniciou sua carreira ainda muito jovem, e em 2009 abrilhantou a telinha interpretando a doméstica Sheila em Caminho das Índias, por sua interpretação foi premiada como atriz revelação, e após este trabalho não parou mais. Atualmente a atriz está em cartaz no musical “Partimpim”, baseado na obra de Adriana Calcanhoto.

Pedro Lima: Apesar da evolução sabemos que as portas para artistas negros não se abrem com facilidade, conte-nos um pouco sobre sua trajetória até encontrar a divertida Sheila, papel que interpretou em Caminho das Índias?

Polly Marinho: Eu tive o privilégio que minha mãe me deu de estudar na melhor escola de teatro do Rio na época, o “tablado”, que sempre foi referência e aonde os produtores de elenco sempre iam buscar atores. Faço teste para a Globo desde meus 15 anos, e com 16 eu fiz meu primeiro trabalho lá, que foi em Malhação quando virou Múltipla Escolha, depois disso fiz várias peças, casei, tive minha filha, passei por vários grupos como teatro oficina e nós do morro, até que aos meus 25 anos fui convidada pela Glória Perez para fazer a Sheila, que mudou a minha vida.

PL: Logo depois você deu vida a Zuleide em Malhação ID, como foi a experiência em contracenar com boa parte do elenco formado por jovens?

PM: Eu sempre me dei muito bem com a galera mais nova, tenho uma alma muito jovem. Foi maravilhoso, por que sua maioria já eram maduros e somos amigos até hoje. Como a Cris (Christiana Ubach), a Giovana (Echevarria), o Murilo (Couto), o Fiuk, amo todos eles.

PL: Em 2014 você encarou o desafio e participou do quadro Saltibum no Caldeirão do Huck, o que te levou a aceitar o convite? Pensou em algum momento em desistir?

PM: Eu amo desafios, e quando alguém me chama para algo ainda mais desafiador, eu não consigo dizer não. Quis testar meus limites, aprender algo novo e botar uma gorda, preta, de maiô no horário nobre.

PL: Tendo interpretado até então personagens com uma veia cômica, em 2018 você interpretou a Tenória em Orgulho e Paixão, seu primeiro papel dramático na TV. Como foi mostrar um outro lado ao público?

PM: Eu já queria isso há muito tempo, a maioria das pessoas veem as pessoas gordas como engraçadas, não que eu não seja, sou muito, mas sou muito mais que isso também. Eu como atriz e como pessoa, gosto de me desafiar o tempo todo, não gosto de ficar confortável, e a comedia é um lugar confortável para mim. Eu amo drama, e no teatro que a gente tem mais opções de escolha eu sempre faço papeis bem dramáticos.

PL: De acordo com uma pesquisa feita por uma agência publicitária em parceria com a ONU Mulheres, a população negra representa 54% dos brasileiros. Mas ainda assim sentem-se pouco representada na mídia de forma em geral, em sua opinião acredita que há pouca representatividade? Como vê a mídia representando os negros?

PM: Sim, é pouco representada. E mesmo tudo estando aí bem claro para quem quiser saber, eles
fazem questão de nos invisibilizar. Mas nós estamos nos estruturando para fazer o nosso e em pouco tempo, não iremos precisar mais do espaço que “eles” querem nos dar, e sim criar nosso próprio espaço. O Brasil é um país racista, assim como seu audiovisual que é comandado por publicitários paulistas que acham que o Brasil vive na bolha classista que eles vivem. 
Graças a Deus a internet está ai para abrir o mercado e obrigar eles a se adequarem à população e não o contrário.

PL: Ano passado você foi uma das modelos que participou da exposição “Feminilidades, uma relação entre corpos e olhares”, qual a proposta você quis passar posando nua?

PM: Por causa do teatro eu sempre tive uma liberdade muito grande com o meu corpo. Perdi o pudor! Antes do feminilidades, já tinha feito nu com “Apartamento 302” do Jorge Bispo e com o Fernando Shefferch em #365nus. Eu amo servir de inspiração e referência para outras mulheres que não estão inseridas no “padrão ultrapassado” da sociedade.

PL: Além de atriz e cantora você também é modelo plus size, como surgiu o interesse pela moda? Sempre se sentiu acolhida por esse universo?

PM: Nunca me senti acolhida por esse universo, até porque no Brasil faz muito pouco tempo que se tem roupas bonitas para mulheres grandes, mas sempre gostei de moda, sempre fiz meus looks e desde que comecei a fazer novelas e filmes as marcas me chamaram para desfilar, até meu auge quando por dois anos consecutivos fui a única modelo plus size do “Mercedes Benz Fashion Week” em Miami.

PL: Infelizmente estamos vivendo um momento de retrocesso cultural, político e civil. Qual seu posicionamento diante do atual momento que o pais enfrenta?

PM: Esse governo é contra tudo o que eu acredito, e me sinto insegura aqui enquanto eles estão no poder. Sou mulher, sou negra, sou artista, sou feminista e a favor das cotas. Sou tudo o que eles lutam contra. Agora é lutar! Ficarmos juntos até isso acabar.

PL: Quais são seus projetos para o futuro?

PM: Estou no momento fazendo o musical “Partimpim” da Adriana Calcanhoto, em dezembro estreia a terceira temporada de “Me Chama de Bruna” pela FOX que fiz no começo do ano e no ano que vem faço um personagem incrível para uma série, mas não posso falar sobre ela ainda.

Entrevista publicada originalmente em outubro de 2019 na Coluna Nostalgia do Portal Comenta.


Postar um comentário

0 Comentários