Jão transforma a dor do luto em arte e entrega "Memórias Póstumas", seu quinto álbum de estúdio


NOTA: 9/10

Dez anos depois do seu primeiro lançamento, a faixa "Dança pra Mim", Jão transforma a dor do luto em arte e entrega "Memórias Póstumas", seu quinto álbum de estúdio.

Você não vai encontrar no novo projeto uma faixa como "Me Lambe", presente no álbum anterior, "Super", e talvez esse seja o maior acerto do artista. "Memórias Póstumas" é um álbum para apreciar e prestar atenção nos detalhes, e isso é corajoso para um artista que tem um grande público teen. Em um mercado que cobra músicas instantâneas e refrões virais, Jão faz justamente o contrário: convida o ouvinte a desacelerar.

Talvez, para quem chegou a partir do "Pirata", projeto que alçou o voo do artista e fez seu público triplicar — ou até mais —, este álbum soe como um ponto fora da curva. Já vi comentários dizendo que o projeto não pegou de primeira, e realmente não são músicas fáceis nem de interpretação rasa. "Memórias Póstumas" parece ter sido pensado para crescer a cada nova audição, revelando nuances que passam despercebidas no primeiro contato.

Destaco, entre a tracklist, "Catedral", que abre o álbum de forma grandiosa e já apresenta o clima melancólico que atravessa todo o projeto; "Literatura", um dos pontos altos do disco e, para mim, uma das melhores músicas da discografia de Jão, reunindo letra, interpretação e emoção de forma impressionante; "João", uma balada confessional escrita por Pedro que deve frustrar quem esperava uma música apaixonada. A faixa fala sobre um amor real, daqueles que passam por altos e baixos, e tá tudo bem. Isso não significa que o amor ou a relação terminaram, como muitos deduziram; "Por Você", que segue pelo caminho oposto e entrega uma declaração delicada, assim como "Alinhamento Milenar", no álbum anterior; e a irresistível "Perigos Noturnos", uma daquelas músicas que ficam na cabeça sem abrir mão da identidade do álbum.

"Memórias Póstumas" talvez não seja o álbum mais imediato da carreira de Jão, mas pode muito bem ser um dos mais maduros. É um trabalho que não faz questão de agradar na primeira escuta e, justamente por isso, recompensa quem decide voltar.

Jão mostra mais uma vez por que construiu uma comunidade tão engajada de fãs. E eu me encaixo nessa comunidade. Um artista que fala sobre emoções reais e que não se prende ao raso para tentar alcançar o topo de um chart. Isso é ser artista.

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