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| 📸: @phillipeee |
Há algo muito errado na forma como parte da imprensa e do público trata Luísa Sonza.
Depois de seu show no Rock in Rio, novamente, a música parece ter ficado em segundo plano. Em vez de discutir repertório, performance, produção, presença de palco ou o momento de uma das artistas mais populares da música brasileira, algumas manchetes preferiram transformar o show em um inventário da vida amorosa de Luísa: as músicas sobre o ex, as músicas sobre o noivo, as indiretas, a roupa, o corpo, a sensualidade.
É uma maneira bastante conveniente de apagar uma artista e deixar apenas a personagem que criaram sobre ela.
Luísa pode ser criticada. Sua música pode ser criticada. Seu show pode ser criticado. Mas existe uma diferença enorme entre crítica artística e a insistência em reduzir uma mulher ao próprio passado afetivo.
Até porque há algo ainda mais grave: algumas manchetes atribuem ao show músicas que sequer foram cantadas. Ou seja, não basta transformar a vida pessoal da artista em pauta, é preciso construir uma narrativa sobre a apresentação mesmo quando ela não corresponde ao que aconteceu no palco.
Isso não é apenas uma questão de gosto. É irresponsabilidade jornalística.
E também revela uma obsessão bastante específica: por que, quando se trata de Luísa Sonza, ainda existe tanta necessidade de procurar o ex, o atual, o término, o noivado e qualquer elemento da vida íntima para explicar sua música?
Um homem pode cantar sobre relacionamentos e isso ser chamado de composição, experiência, vulnerabilidade, narrativa. Uma mulher faz o mesmo e rapidamente sua obra vira “indireta”, “recado para o ex” ou capítulo de uma novela sobre sua vida pessoal.
E quando o assunto não é o relacionamento, é o corpo.
A roupa vira manchete. A sensualidade vira manchete. O corpo vira manchete. A música desaparece.
É o velho machismo funcionando em duas frentes: sexualizar a mulher e, ao mesmo tempo, diminuir sua produção artística. Ela pode até ocupar o maior palco, reunir uma multidão e entregar uma grande apresentação e ainda assim, há quem prefira perguntar sobre quem ela está cantando.
Isso diz muito mais sobre o olhar de quem cobre e comenta do que sobre Luísa.
Não é preciso gostar dela para reconhecer o problema.
Crítica é dizer que uma música não funciona. Que o vocal não agradou. Que a performance poderia ser melhor. Que o repertório é fraco. Que o show não entregou o esperado.
Reduzir uma apresentação inteira à roupa, ao corpo ou ao ex não é crítica musical.
E atribuir ao show músicas que nem foram apresentadas é pior ainda: é fabricar uma narrativa e depois entregá-la ao público como se fosse fato.
Luísa Sonza não precisa ser protegida de críticas. Precisa, simplesmente, ser tratada como artista.
Porque quando uma mulher sobe ao palco, talvez seja hora de começarmos a olhar para o palco, e não para a vida que inventaram sobre ela.

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