
Quando comecei a assistir a Além da Ilusão, a novela já demonstrava potencial para ser uma boa trama. Agora, cada vez mais próximo da reta final, sigo achando que ela é uma das melhores produções recentes da Globo — mas com uma ressalva importante: seus momentos mais fortes quase nunca estão nos dramas dos protagonistas.
Eugênio e Violeta são, certamente, um dos grandes acertos da novela. Marcelo Novaes e Malu Galli construíram uma dupla que começou em uma divertida relação de gato e rato e, aos poucos, encontrou no amor uma camada muito mais interessante. O problema é que eles não podem simplesmente viver esse sentimento, especialmente por conta de Mathias. Antonio Calloni está irretocável no papel e transforma qualquer cena do personagem em algo tenso, incômodo e indispensável para a trama.
Outro casal que se destaca é Heloísa e Leônidas. Palomma Duarte e Eriberto Leão encontraram uma sintonia muito bonita, e seus personagens carregam uma delicadeza que falta em boa parte dos conflitos centrais. São justamente esses dois casais que fazem o público se envolver de verdade, a ponto de ofuscarem Isadora e Davi.
E isso é um problema. Isadora começou a novela como uma jovem à frente de seu tempo, cheia de convicções e disposta a enfrentar o que fosse preciso. Aos poucos, porém, foi se transformando em uma protagonista contraditória, que acredita em qualquer história, passa capítulos chorando e parece existir apenas para reagir aos acontecimentos. A sequência em que ela corre, chora, desmaia e cai no rio é o retrato perfeito de um excesso de drama que, em vez de emocionar, cansa.
Davi continua sendo um personagem carismático, mas sua trajetória também parece ter estacionado. Apesar de todo o peso que carrega e da injustiça que sofreu, sua história se resume cada vez mais ao amor por Dorinha. Falta iniciativa, falta investigação, falta esforço para provar a própria inocência. É estranho que uma novela com um mistério tão importante deixe seu protagonista tão passivo diante dele.
A chegada de Iolanda também não ajudou. A personagem começou com algum potencial, mas retornou à cidade apenas para impedir o casamento dos protagonistas. Pior: a atuação tem sido exagerada, e suas últimas cenas fizeram Iolanda parecer uma vilã caricata, quase saída de um desenho animado.
Além da Ilusão continua boa, com ótimos personagens, atuações inspiradas e conflitos capazes de prender o público. Mas seus melhores enredos estão fora do centro da história. A autora tem em mãos um drama principal cheio de possibilidades; resta saber se, até o fim, conseguirá recolocar Isadora e Davi no lugar que deveriam ocupar. Espero não me decepcionar.
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