Em 2008, A Favorita mudou a forma como o público se relacionava com a teledramaturgia. Durante boa parte da trama, acreditamos estar diante de uma história clássica de injustiça: Flora era a vítima, Donatela a vilã. Mas bastou uma virada de roteiro para a novela se transformar em um dos maiores choques narrativos da história da TV brasileira.
O mérito não foi apenas do texto afiado de João Emanuel Carneiro, mas da construção cuidadosa de personagens ambíguos, capazes de enganar tanto os protagonistas quanto o público. Quando a máscara de Flora caiu, o Brasil caiu junto. A vilã não só roubou a cena, como redefiniu o que significava ser má em uma novela.
Mais do que uma reviravolta, A Favorita inaugurou uma era em que o telespectador passou a desconfiar de tudo e de todos. Nada mais era óbvio. A partir dali, cada olhar, cada silêncio e cada gesto passaram a ser pistas de um jogo maior.
Rever A Favorita hoje é perceber o quanto ela foi ousada para sua época. Uma novela que não tinha medo de brincar com a percepção do público, de provocar, de subverter expectativas. Um marco que ainda ecoa nos roteiros atuais — mesmo quando eles fingem que não aprenderam nada com ela.

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